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texto de Murilo Basso (@murilo_basso)

A adolescência é um período engraçado. Nessa época você está longe de saber ao certo o que realmente quer. Palpite: alguns querem ser livres de toda aquela angustia que, na maioria dos casos, só pode ser superada de olhos fechados e com fones nos ouvidos. E foi dessa forma que o Teenage Fanclub tornou aqueles dias menos sombrios.

Em 1997, quando Songs from Northern Britain foi lançado, o mundo da música dividia suas atenções entre POP, do U2 e algum novo single das Spice Girls. Outros observavam os Gallaghers cavarem sua própria cova após Be Here Now enquanto Damon Albarn sorria cinicamente. Eu tinha oito anos e, claro, não me recordo da primeira vez que ouvi Teenage Fanclub, alguns anos mais tarde. Mas ao menos tenho viva em minha memória a primeira vez que vivi Songs from Northern Britain.

Os rapazes de Glasgow eram a antítese do que havia na música, afinal não tinham relação com a imagem de rock star que rolava na época. Eles provaram que um pouco de sensibilidade não faria mal ao rock dos anos 90 e trouxeram esperanças para pessoas como eu. Songs from Northern Britain está longe de ser seu melhor álbum. Apesar de bem recebido no Reino Unido, o disco passou praticamente despercebido pelo mercado americano. Grand Prix, opinião quase unânime e sensata, é sua obra-prima. Bandwagonesque com seu peso maior e até mesmo a “sujeira” de Thirteen trazem, musicalmente falando, pontos mais altos. Há ainda os que preferem a aura doce de Howdy!. Ok, todos estarão um pouco certos, mas é fato que em nem um deles há a inspiração sincera e apaixonada que transborda em Songs from Northern Britain. Nele o Teenage Fanclub exalta seu passado lançando mão de melodias doces sem qualquer sinal de ironia ou cinismo.

“Ain’t that Enough” surge com sua esperança ingênua (“Time can only make demands / Fill it up with grains of sand / Bring your loving over”), o idealismo romântico aparece em Can’t feel my soul” (“What I’ve found out / Is what I’ve found / I can’t live without / Having you around / You what I need and / I needed you”) e a resignação bate cartão em “It’s a bad World” (“I’ve got a reason / To know your name / I’ve got a reason / To stay the same”). Há ainda “Winter”, que irá embalar muitos apaixonados por tempo indeterminado e, claro, “Your Love Is The Place Where I Come From”, provavelmente a canção mais linda da história das canções lindas. Porque ninguém retrata o amor como ela.

Graças a “Your Love Is The Place When I Come From” percebi que canções só se tornam realmente importantes quando são associadas a sentimentos, sensações. Então tudo parece mais sincero e, lá no fundo, isso é o que realmente importa. Nesse dia Norman Blake, Gerard Love e Raymond McGinley me ajudaram a dizer “eu te amo” pela primeira vez. Desde então, sempre que a ouço, não me recordo do momento em si, mas sim daqueles 15 minutos anteriores que consolidaram o Teenage Fanclub como meu refúgio musical contra o mundo, se tornando aquele bom amigo que nos piores momentos vem nos visitar e fazer sorrir.

Songs from Northern Britain é um tratado sentimental dos mais sinceros. É romance, capaz de retratar um período de nossas vidas que hoje talvez já não faça mais sentido. É uma tentativa frustrada de suicídio, afinal não é todo dia que alguém é capaz de entrar em nosso coração e transformar o resultado dessa visita em música. E se mesmo assim você insiste que é capaz de guardar segredos de si mesmo corra e ouça Songs from Northern Britain. Sozinho e de olhos fechados. Boa parte de seus medos e dúvidas estarão ali, perdidos em meio ao som nostálgico do teclado, a simplicidade do violão e os vocais propositalmente ingênuos. Deixe que ele invada sua alma e traga a tona lembranças esquecidas, sonhos incertos e inseguranças aparentemente tolas.

Sete anos atrás Norman Blake, Gerard Love e Raymond McGinley me ajudaram a dizer “eu te amo”. Hoje, na mesma situação, e mais uma vez sem saber o que fazer, espero que eles possam me ajudar a encontrar o melhor caminho. E, se nada der certo, ao menos torço para que o filme da minha vida continue e a trilha sonora mantenha a mesma assinatura. Cartas de amor para gurias que insistem não se deixar comover por cartas de amor. Sinceridade também conta, não?

Murilo Basso é estudante de jornalismo. Escreve para o Scream & Yell, Urbanaque e para a revista Rolling Stone


texto de Juliana Simon (@jusimon)

Quando tinha uns cinco anos, quebrei a agulha da vitrola dos meus pais. Eles não me deixavam colocar o disco (Xuxa? Saltimbancos?) porque eu não conseguia acertar o “fio” para começar. Resultado: certo dia tentei – e estraguei o aparelho. Ele tinha um destaque pela casa. Lembro de ouvir “Queixa” do Caetano nas manhãs do fim de semana, de estar do lado dele quando votavam o impeachment do Collor, de vê-lo na estante da casa nova, em 92.

Depois do “incidente”, não me lembro de grandes passagens “fonográficas” por um bom tempo. Ouvia o que aparecia. No começo da adolescência, ficava com uma fita K7 virgem no rádio para gravar as músicas que eu mais gostava das rádios (Deus sabe o que eu gravava e onde estão essas fitas). Outra fonte de sons foi a MTV, que eu assistia religiosamente depois das aulas. Por ela conheci Faith No More e… Spice Girls! Com 11 anos, tudo podia residir no meu gosto anárquico.

Em 2000, caiu aqui em casa um VHS com um documentário sobre uns senhores cubanos engraçadinhos que só. Achei uma graça tremenda em todo som e como as vozes deles me davam a impressão de que cantavam sempre sorrindo. Um ano depois, minha mãe ganhou o CD com a trilha do tal filme. Achei o nome da “banda” uma coisa espetacular: Buena Vista Social Club. Sequestrei o tal e ele nunca mais saiu da minha estante.

Mais ou menos nessa época, com 15 anos, comecei a me interessar por política e pela tal esquerda. E isso, claro, incluía doses generosas de Cuba, Fidel, Che, etc. Minha paixão pela música latina só fez aumentar – mesmo Buena Vista Social Club sendo baseado em canções “pré-revolução”, coisa que eu nem imaginava na época. Dos senhores Ibrahim Ferrer e Compay Segundo, fui para Sílvio Rodriguez e sua “Ojalá”, que me emociona mesmo agora, com as utopias escorrendo pelo ralo. E, então, desci as Américas: fui para Victor Jara e Mercedes Sosa.

Minhas leituras e meus textos de faculdade foram regados a muito “Chan Chan” e, que ironia, “Amor de Loca Juventud”. A pronúncia dos nobres senhores é especial. Aquele espanhol aberto e que deixa as vogais no ar, complicado de entender. Em “Orgullecida”, a voz trêmula de um Compay de 90 e tantos anos ganha uma rouquidão sonora e simpática.

Devo confessar que adoro um bolero. Daqueles mais rasgados, como “Dos Gardenias” na voz de Ferrer, composto nos anos 30. Dor de cotovelo é atemporal e não há ritmo que expresse o quanto é cafona, deliciosamente cafona, fazer e ouvir música sofrida. Posso imaginar uma conversa animada com a minha avó, que adorava um bom samba-canção, Altemar Dutra, Dolores Durán e afins.

O álbum é uma aula de ritmo e o encarte é todo didático com os gringos que desconhecem a diferença entre a rumba de “El Cuarto de Tula”, a guajira de “Carretero” e a tumbao de “Candela”.

Vez ou outra, o CD volta a ecoar pela casa. E como sinto falta da vitrola quebrada de anos atrás. Buena Vista deve ter outro sabor num vinil, naquelas imperfeições sonoras gostosas de lembrar. Por mais que o gosto musical tenha sido bastante mutante de uns anos para cá, o ritmo dos “velhinhos” não perdeu um centímetro do meu coração, como diria um bom bolero.

Juliana Simon é jornalista e editora de capa no iG. Mantém o ótimo blog Deixo um Post It

texto de Marco Antônio “Bart” Barbosa (@BartBarbosa)

Nasci e cresci em São Gonçalo, a cerca de 30 km do Rio de Janeiro. Apesar da proximidade com a capital, e de ser um dos maiores (em população e extensão) municípios do estado, é, ainda hoje, essencialmente uma cidade do interior. Imagine na segunda metade dos anos 80 do século passado, pré-internet, pré-CD, pré-MTV. Para um adolescente durango, conhecer aqueles LPs fabulosos que figuravam nas páginas da revista Bizz significava ter de ir ao Centro do Rio – não havia loja de disco que prestasse em SG.  Mencionei que eu era (mais) durango? Eu economizava todo e qualquer trocado que pintasse para, periodicamente, excursionar às lojas da capital. Meu pai me acompanhava, para que eu não me perdesse pelas ruas da cidade grande. Foi numa dessas excursões com meu pai, em 1988, que comprei o disco que mudou a minha vida. Chegamos em casa, corri para a vitrola e botei a bolacha pra rodar. A primeira música não causou grande impressão no coroa. Quando começou a segunda, Marco Antonio Pai franziu a testa. “Ih, o disco tá com problema. Vamos ter que ir lá trocar”.

A música era essa:

“Não, pai, o disco não está com problema. É para ser assim mesmo.”

O momento mágico de Psychocandy, primeiro álbum do Jesus and Mary Chain, é justamente o silêncio entre o fim de “Just Like Honey” e o começo de “The Living End” – quem nunca ouviu o disco leva um susto, quem já ouviu mal consegue conter a expectativa. Eu nunca tinha escutado nada tão barulhento, e aquilo era só o começo. “Taste the Floor” emendava em “The Hardest Walk” e chegava a “In a Hole”, o paroxismo ruidoso do primeiro lado do vinil. A acústica “Cut Dead” era o único momento de respiro.  “Taste of Cindy”, uma das minhas favoritas, fechava a sequência. Na outra face, “Never Understand”, “Inside Me”, “You Trip me Up” e “It’s So Hard” garantiam os picos de VU. O encanto perverso era a união de melodias assobiáveis, (remetendo à surf music e aos girl groups sessentistas) com a mais furiosa torrente de microfonia registrada num disco mainstream (eles gravavam pela Blanco Y Negro, selo da multinacional Warner). É preciso gastar espaço com a avalanche de bandas que devem suas carreiras inteiras a esse disco? Não, né?

Eu me apaixonei pelo J&MC antes de ouví-lo. Só ver as fotos e ler a descrição do som da banda (“Um bombom de cereja recheado de ácido sulfúrico”, como rezava a resenha da Bizz) foi o suficiente. Uma mistura de Velvet Underground com Beach Boys – algo indecifrável para mim, que nunca tinha ouvido Beach Boys, que dirá Velvet.  Consegui ouvir uma música deles aqui e ali: o clipe de “Never Understand” no Vibração, uma execução de “You Trip Me Up” na Fluminense FM… Na época eu já tinha sido cooptado irremediavelmente pelas hostes alternativas. Em vez de ouvir Kiss e Led Zeppelin como qualquer adolescente padrão, minha cabeça andava cheia de Talking Heads, Sex Pistols, Echo & The Bunnymen e New Order. A aura que emanava da banda dos irmãos Jim e William Reid sibilava: esse grupo é para mim. A compra relativamente tardia de Psychocandy confirmou essa impressão. O ruidoso canto de sereia dos escoceses me enfeitiçou – e até hoje impede que eu me conforme com qualquer rock que cheire, ainda que remotamente, à “normalidade”. A partir de Psychocandy, eu nunca mais deixaria de procurar por sons desafiadores, dissonantes, imprevisíveis. O Jesus me abriu os ouvidos para uma linhagem sônica que mirava o passado (Velvet, MC5, Stooges, Modern Lovers, Sonic Youth…) e para o que viria depois (Spacemen 3, My Bloody Valentine, todos os shoegazers…) e que ocupa uma grande fatia da minha discoteca.

O velho vinil que causou tanto espanto ao meu velho pai continua na minha estante. E com uma vantagem: é um dos poucos LPs que melhoram com o tempo. Quanto mais arranhado, melhor.

Marco Antônio “Bart” Barbosa é jornalista, um dos sobreviventes da volta do SWU e dono do Telhado de Vidro

texto de Helena Nacinovic (Fotografando)

Ainda me lembro de 1990, o ano em que tudo começou. Eu tinha 10 anos e era precoce em muitas coisas, mas não era descolada. Era só uma menina que já tinha cansado das bonecas, mas não tinha encontrado ainda um hobby substituto. E daí um dia eu encontrei a Rádio Cidade, uma rádio carioca que tocava basicamente rock da moda. E lá eu ouvi “Paradise City” pela primeira vez. Até hoje os acordes iniciais dessa música me fazem lembrar do verão de férias em que a MTV entrou na minha vida e eu ganhei meu primeiro vinil de “gente grande”: Appetite for Destruction. Foi meu presente de Natal, dado pela minha avó – sim, com a capa censurada nos EUA e tudo. Não tenho ideia do que ela pensou ao comprar um disco com um robô estruprando uma moça na capa, mas certamente esse presente deu o tom do que estava por vir na minha adolescência.

Appetite marcou o momento que eu comecei a descobrir a música e, mais especificamente o rock, por mim mesma. Foi principalmente quando comecei a amar e tentar imitar a atitude rock n’ roll na vida. Comecei a ler a Melody Maker, a Circus e todas as revistas de rock farofa disponíveis nas bancas de revistas importadas cariocas. Colecionei pôsteres e consegui permissão para colá-los na parede do meu quarto. Como previsão do lado indie que viria dez anos depois, me apaixonei perdidamente pelo baixista do Guns, Duff McKagan. (O Duff era uma escolha incomum entre as fãs de Guns N’ Roses, a maioria preferia o belíssimo e ainda digno Axl Rose. E, sim, nós assinávamos os bilhetes entre amigas usando o sobrenome do ídolo favorito. Sim, era patético, mas faz parte)

Todo esse cenário jamais teria acontecido se a música não tivesse sido avassaladora. Eu colocava o disco para tocar nas tardes depois da escola e ouvia inteiro várias vezes por dia, até saber cada detalhe de cada música. Minha favorita era e continua sendo “Mr. Brownstone”, porque dá para dançar de uma forma provocante e divertida. Como ficar indiferente a “Welcome to the Jungle”? Como ignorar a própria “Paradise City” naquele verão em que o clipe passava constantemente na MTV e não associar a música com o Rio 40 graus? Como não mover mundos e fundos para estar no Maracanã no dia 20 de Janeiro de 1991, assistindo ao primeiro show do Guns no Rock In Rio II?

Naquele show, que anunciava o épico Use Your Illusion, eu decidi que queria sempre sentir tudo aquilo que senti quando o Maracanã tremeu com as vozes cantando “Sweet Child O’ Mine”. Meu primeiro show já começou e exigiu um esforço épico que não me custou quase nada na tenra idade de 10 aninhos.

Foi uma boa época para mergulhar no rock, farofa ou não. O Brasil começava a receber material musical com menos atraso e as bandas começaram a vir ao país com mais frequência e em menos estado de decadência. Gostar de Guns e ouvir o Appetite for Destruction em loop também me fez, com o tempo, entender as músicas que eu tinha crescido ouvindo sem saber o que eram: Rolling Stones, Beatles, Black Sabbath, Cream, Jimi Hendrix, Led Zeppelin… Foi minha porta de entrada com alguma dose de rebeldia no mundo musical dos meus pais, que faziam piadas sem fim sobre os cabelos, roupas e gritinhos dos gunners.

Por causa desse disco eu pedi para entrar no curso de inglês, porque queria entender as letras. Comecei a ler a Bizz e era particularmente fã da Bizz Letras Traduzidas. Aprendi inglês falando sobre mulheres, drogas, bebida e orgias, o que certamente mostra como não havia censura de informações na minha casa, apenas uma saudável censura de ações, dada minha extrema juventude. E mesmo assim aqueles cabeludos bêbados drogados ganharam lugar de honra durante anos nas paredes do meu quarto de adolescente, enquanto as meninas “normais” ouviam New Kids on the Block, curtiam surfistas da praia de Ipanema e dançavam Daniela Mercury.

Eu fiz diferente por causa do amor pelo Guns, que começou com o amor por Appetite for Destruction. E foi bom para mim.

Helena Nacinovic é jornalista não-praticante e mantém o blog Ficções

texto de Rodrigo James (@rodrigojames)

Todas as vezes em que vou tentar eleger um disco para a vida, me lembro de quando ouvi pela primeira vez um pedinte de rua entrar em um ônibus e dizer “eu podia estar matando, eu podia estar roubando, mas estou aqui apenas para pedir seu dinheiro dignamente”. Claro, existem variações sobre um mesmo tema e é bem provável que nem todos os pedintes consigam colocar “dignamente” nesta frase.

Dito isto, vamos à minha versão. Eu poderia estar escolhendo Beatles, Stones, Zeppelin, Queen, etc etc etc e etc, mas estou aqui apenas escolhendo The Smiths. E antes que me chamem de indie traidor do sistema, vou logo explicando que lá pelos idos de 1986, quando o indie não era chamado de indie, o cool não era chamado de cool e a Internet não passava de um projeto ultra-secreto militar norte-americano, eu vi a luz.

O contexto era mais ou menos este: tudo que conseguíamos ouvir de música vinha das rádios e do que as gravadoras decidiam editar no país. Importar disco era quase proibido para nós, pobres adolescentes (um quase pleonasmo, já que quase todo adolescente é quase pobre) e tínhamos que nos contentar com o que existia por aí. E o que existia? O mainstream. Era quase como se, nos dias de hoje, tivéssemos que nos contentar com Restart, NX Zero e Beyoncé. Não tinha como ouvir Arcade Fire, Decemberists ou Marcelo Jeneci. Os incomodados que se retirassem – ou então arrumassem uma graninha extra pra comprar os famigerados importados.

E aí estamos em 1985. Rock In Rio, BRock e toda aquela onda. Entra em cena um amigo: Leonardo Veras. Além de ser um de meus melhores amigos desde sempre, Leo era filho do diretor da rádio número 1 em audiência na cidade de Belo Horizonte e tinha acesso a todos os discos que eram lançados no Brasil. E nem tudo interessava à rádio. O que não interessava era sorteado, dado de presente ou entrava em algum limbo na residência dos Veras. E nem tudo interessava ao próprio Leo, que repassava aos amigos. Foi assim que, num belo dia, cai em minhas mãos um disco de capa azul, com um rapaz meio de perfil. Foi vendido assim pelo Leo: “Cara, toma esse disco pra você, talvez você goste. Eu não curti muito, as músicas são todas iguais.” Este disco era Hatful of Hollow, o primeiro lançamento dos Smiths no país.

O tal disco “todo igual” me pegou de vez. Não só eu não achei ele todo igual como era um tipo de som diferente de tudo que eu ouvi nas rádios. Não era metal, não era BRock. Logo na primeira música, “William It Was Really Nothing”, um fade in ia direto ao assunto com violão, guitarra, baixo e bateria se encontrando em uns poucos segundos de instrumental até entrar a voz de Morrissey. Tudo muito simples, muito direto, muito… diferente.

Hatful of Hollow me abriu portas. Percebi que eu não precisava esperar mais que estas coisas diferentes fossem lançadas no mercado brasileiro. Elas já estavam sendo lançadas, ainda que timidamente, debaixo do meu nariz. Bastava que eu fosse procurá-las. E eu comecei a encontrar. Um New Order aqui, um The Cure acolá. Mas faltava algo. Faltava “O” disco, para que eu me convencesse que eu pertencia àquele mundo.

E aí chegou 1986 e com ele as notícias de um novo disco dos Smiths. Precedido por alguns singles, The Queen Is Dead chegou em algum momento daquele ano e, com ele, a certeza de que minha formação musical havia mudado para sempre. Muita gente chama isto de proto-indie, apesar de o termo não ter sido inventado até o início da década seguinte, mas eu prefiro chamar de… “diferente”.

Por que aquele disco era diferente e tão bom? Primeiro porque Morrissey e Johnny Marr atingiram a perfeição. Difícil dizer isso em se tratando de música, mas como classificar o encontro de letra e melodia de “I Know It’s Over”, só pra começar? “Oh Mother, I can feel the soil falling over my head” fala bastante alto no coração de um adolescente de 14 anos cheio de proto-paixões. Aliás, cada verso desta canção é uma aula. “Love is natural and real / but not for you, my love”. Uma simplicidade tão complexa que hoje, mais de 20 anos depois, ainda sou capaz de descobrir significados ocultos.

Mas The Queen Is Dead também trazia outras obras-primas. Os dois singles radiofônicos e até hoje maiores sucessos da banda, “Bigmouth Strikes Again” e “The Boy With The Thorn In His Side”, por exemplo. Duas canções pop tão perfeitas e assobiáveis que não é possível ouví-las sem um “air acoustic guitar” ou um, sei lá, “air microfone”. Foi aí que descobri também que meu timbre de voz se assemelhava ao de Morrissey e era possível, para mim, cantar todas as músicas do álbum sem forçar. “Então isso é cantar!” dizia atordoado o adolescente que já havia tentado acompanhar Freddie Mercury ou Robert Plant em vão. Cantar não era simplesmente atingir aquela nota impossível, era modular a voz com emoção para atingir mentes e corações intensos. Assim, passei tardes e tardes no meu quartinho, cantando a plenos pulmões aquelas letras tão simples e complicadas, sem me importar com o ódio de meus vizinhos.

O que? Keats e Yeats estão a meu lado? Era o que dizia a letra de “Cemetery Gates” mas quem eram estes caras? O adolescente curioso passou a procurar em livros e enciclopédias aqueles nomes, na tentativa de pelo menos enxergar um pouco do universo de Stephen Patrick Morrissey. E quando a finada revista Bizz trouxe uma resenha do disco dizendo que a faixa-título e “Bigmouth Strikes Again” eram sim críticas à realeza britânica e à então primeira-ministra Margaret Thatcher, a rebeldia se instaurou. Morrissey, além de sensível e culto era um pouco punk. Diziam que era também gay, mas que também poderia ser assexuado. Nada disso interessava, porém.

The Queen Is Dead tem apenas dez canções. Dez perfeitas canções que foram capazes de me levar para outro universo. Parece lugar comum dizer que um disco muda a vida de uma pessoa. Não é o melhor disco que já ouvi, mas ele sempre ocupa um lugar de destaque quando preciso fazer uma lista. De qualquer forma, foi o disco que me disse: “abra seu olho, existe um mundo aí fora bem melhor do que este em que você vive”. E acreditem, isso vale para uma vida.

Rodrigo James é um dos homens por trás do excelente e essencial Alto Falante


texto de John Ulhoa (@johnulhoa)

Eu faço as contas e chego à conclusão de que em 1978, quando Q: Are We Not Men? A: We Are Devo! foi lançado, eu tinha 12 anos. Não me lembro a primeira vez que ouvi, mas me lembro da primeira vez que VI. Não deve ter sido mesmo em 78, as coisas demoravam um pouco a chegar aqui. Mas tinha um ou outro programa de clipes na TV. E aí apareceu o Devo tocando “(I Can’t Get No) Satisfaction”, cover dos Stones.

Aí danou-se.

Deixa eu explicar: naquela época a gente tinha no Brasil ao mesmo tempo uma invasão da disco music (que eu achava insuportável, precisei de muito tempo pra superar esse asco – acho que até hoje tenho sequelas) e notícias do punk rock explodindo e deixando os telespectadores do Fantástico sem saber o que pensar daquele troço. Eu gostei dos punks. Pensei, putz, porque num aparecem uns caras assim aqui no Brasil? Demorou a aparecer – pelo menos perto da minha casa – mas nesse meio-tempo apareceram as bandas da chamada new wave ou o pós-punk. Daí ergui um altar para a sacrossanta trindade da minha adolescência: The Clash, B 52’s e o Devo. Dos três, o Devo era o que parecia não ter vindo de lugar nenhum. O Clash estava claramente ligado ao punk inglês, o B 52’s tinha um pé na surf music, mas o Devo… era só um sub-produto genial da mente doentia de uns nerds cínicos. Eles pareciam não ter ouvido nenhum tipo de música antes de criar a sua própria.

Quando o disco (ou a fita k7 gravada de algum amigo…) chegou às minhas mãos, fui abduzido instantaneamente àquele universo de anti-matéria que esses bichos produziam. O Devo tinha sim, ouvido algum tipo de música antes de tudo. Claro, tanto que fizeram uma cover dos Stones. E outras. Mas o legal é que faziam os Stones parecerem a banda mais careta do mundo. O rock já tinha dado toda a volta que deu e chegado ao punk, como alguém podia levar os Stones tão a sério ainda? Era um negócio que já me aborrecia na época, a ortodoxia roqueira. Bom, a ortodoxia roqueira pode até servir pra alguma coisa, mas, naquele momento, o Devo matou a pau. E por um bom tempo, permaneceram como a banda mais fora de qualquer molde que pudesse aparecer. Quando os vi ao vivo tocando “Uncontrollable Urge” num vídeo chamado Urgh! – A Music War (um festival encabeçado pelo Police, pelo que me lembro), aí que a coisa esquentou. A performance deles no palco era inacreditável, não tinha pra ninguém.

E o melhor, com tudo isso: não soavam como uma banda experimental e chata, cabeça, ou qualquer coisa assim. Pelo contrário, era quase uma bobagem que não precisava ser levada a sério. Mas eu levava. É que eles tinham o baterista mais criativo do mundo em patterns bizarros, mas que funcionavam. Tinham as guitarras mais esquizóides e legais do sistema solar. E tinham o Mark Mothersbaugh, um desses sujeitos one-of-a-kind tocando um moog dum jeito que ninguém tocava, e nem tocou depois.

Uma coisa que descobri anos depois, é que esse disco foi produzido pelo Brian Eno. Palmas pra ele, porque um dia ouvi umas gravações anteriores e eram uma zona. Ele conta que eles eram muito chatos, chegavam com um monte de ideias nerds sobre os timbres que queriam e ficavam vigiando ele o tempo todo, pra ver se ele iria “mudar o som da banda”. Não deixavam ele trabalhar direito e acho que ele quase desistiu num certo ponto. Incrível como essa química funcionou nesse caso. Diz a lenda que uns anos antes um executivo de gravadora ouviu a demo deles e aconselhou: “gravem outra, não mostrem essa pra mais ninguém ou vai arruinar qualquer chance que vocês tenham”. Aí entrou o baterista Alan Myers e azeitou tudo, ele era foda. E aí o Eno.

A coisa estava assim quando, dois discos depois, fizeram um video de  “Freedom of Choice” com os skatistas fodões da época, dentro duma pista lendária na Califórnia, e usavam equipamentos de skate nos shows… Isso muito antes do skate virar o que é hoje – tanto como esporte como nas referências musicais. Eu era skatista na época, isso foi antes de eu começar a tocar. Pois bem, essa mistura foi fatal, e foi uma das coisas que me fizeram querer comprar uma guitarra.

Eu tive a chance de tocar num festival, no mesmo dia do Devo, há pouco tempo. Me encontrei com o Mark e disse, numa epifania de falta de criatividade: “é por sua culpa que estou aqui”. A resposta foi a melhor que ele poderia me dar, e é exatamente a mesma merda que eu falaria pra quem me dissesse a mesma coisa. Foi o perfeito golpe de cinismo no melhor estilo Mark Mothersbaugh: “desculpe por isso”. Nesse você pode confiar.

John Ulhoa, produtor dos bons, é guitarrista do Pato Fu, a melhor e mais criativa banda de rock em atividade no Brasil ( e a segunda em toda história nos dois quesitos, perdendo só para Os Mutantes)

Revolver – Beatles

texto de Marco Tomazzoni (@marcot_)

Eu não tenho lá muito boa memória. Nomes, rostos, datas e imagens inesquecíveis eventualmente se vão. Mas eu guardo com relativo frescor o dia em que o céu se abriu e eu passei a gostar de música, a encarar um disco como obra de arte e não só bater pezinho com o que saía do rádio. O dia em que eu passei a pensar, logo, existir.

Virei adolescente sem ter gosto definido. Meus pais, nascidos no início da década de 1940 no interior, desde pequenos trabalharam e nunca deram a mínima pra música. Um “generation gap” dos brabos. Tirando Balão Mágico, Topo Gigio e trilhas de novela, poucos LPs chegavam lá em casa. Sobrou, então, para o irmão mais velho.

Confesso que hoje não tenho muito o que agradecer. Por causa dele, por um bom tempo achei Jovem Pan e tecno do início dos anos 1990 bacanas – como perdoar isso? Vez que outra escutava por tabela algo minimamente interessante, tipo Depeche Mode e Dire Straits, mas no resto do tempo era só sorte mesmo, como o pop rock gaúcho – no inconsciente coletivo de qualquer um que morasse em Porto Alegre –, as atrações dos programas de auditório e as famigeradas reuniões dançantes, todos com importante papel na minha formação. A questão é que eu, pra ser sincero, também não dava muito bola pra isso. Naqueles dias de ouvidos livres e hormônios adormecidos, livros e histórias em quadrinhos pareciam muito mais atrativos.

As coisas começaram a mudar na virada para o Segundo Grau, o Ensino Médio de quem cresceu longe da década de oitenta. O pop mainstream da época passou a me interessar (U2, Madonna, Aerosmith), até porque instalamos uma antena UHF e, bem, a MTV brasileira vivia sua fase áurea. Meu irmão, o mesmo que dizia que Double You era legal pra caralho, resolveu investir seu dinheiro do estágio – lá em casa ninguém ganhava mesada – pra importar Definitely Maybe, do Oasis. O clipe de “Supersonic” tinha despertado o interesse dele, graças a Deus, e o único jeito de se ouvir um disco gringo naqueles tempos era pegar de um amigo ou pagar por isso, seja alugando o CD (sim, isso existia) ou encomendando numa loja de confiança.

Tive uma fase Oasis fortíssima. Sabia tudo de cor, do início ao fim, inclusive a entonação e pausas mínimas. Achava os Gallagher gênios, a pose justificada, a postura “bad boy” original (vergonha!). Passou, claro, mas aquele som repercute em mim até hoje – o disco continua ótimo – e abriu caminho para o que viria a seguir.

Meu colégio tinha uma prova de seleção difícil, por isso meus colegas não eram necessariamente os mais populares. Pelo contrário, o padrão era o estereótipo clássico de nerd: magrelos de óculos de lente grossa, gordos antissociais ou gênios em miniatura, do tipo que desde pequenos criavam jogos no computador quando tudo o que se tinha na frente era uma tela preta e um cursor piscante. Imaginem os papos no recreio.

Alguns fugiam à regra, um especialmente. Mais velho, o cara tinha sido expulso do Colégio Militar. Nunca soube por que, mas boa coisa não devia ser. Ouvi dizer que antes das aulas ele tinha ido acampar por uma semana num cânion perto de Santa Catarina levando na mochila uma barraca, um quilo de arroz e muita maconha. Naquela época, drogas eram o tabu máximo pra mim e quem usava qualquer uma, boa gente não era. Certo dia, apesar do receio, trocamos umas palavras na sala de aula e, sabe-se lá como, ele jogou uma cópia de Revolver na minha mão.

“One, two, three, four, one, two, three, four”. A contagem na abertura de “Taxman” marcou também o início de uma nova era pra mim. Guitarras passaram a me dizer alguma coisa, o piano também. Havia instrumentos de corda. Falsete. Cítaras. Trompa. Coros. Rocks. Baladas. Diversão. Gritos. A arte de se cantar gritando. GRITANDO. Lembrava Oasis, mas era muito mais. Muito mais viciante, bem acabado, intrincado, variado. Emocionante. Melhor.

Eu não sabia das inovações em estúdio, do conjunto da obra de Lennon/McCartney, da fama de um dos melhores álbuns de todos os tempos, quem era o Doctor Robert (apesar da famosa irmã) ou o amor de “Got to Get You Into My Life”, tampouco importava – era instintivo. Só sentia que aquilo era muito diferente, a começar pela capa, os quatro Beatles com olhos estranhos, gente saindo pelas orelhas e colagens bizarras.

Músicas para gostar de Revolver não faltam – falar de repertório parece besteira depois de quase 50 anos – e talvez por isso o impacto tenha sido tão grande. Não era só um disco esquisito, mas uma arma pop, feita para arrebatar multidões e, quem sabe, deixar alguém nalgum lugar do mundo coçando a cabeça. Um produto de qualidade para as massas. Arte em grande escala. União inédita pra mim e que provocou um efeito inesperado: pela primeira vez, me fez levar música a sério.

Aquele garoto passou a ler e pensar a respeito, a acessar a Internet (que naquela época era só texto), a comprar a revista Bizz, a bisbilhotar discotecas alheias, a fazer coletâneas. Não demorou muito para escrever e a opção pelo jornalismo, ainda mais para quem ansiava por também estudar cinema, foi natural. Olhar pra trás e ver que Revolver acabou sendo decisivo na escolha da minha profissão é quase chocante. Ser fã de Beatles é uma coisa, mas trabalhar em alguma coisa por culpa deles? Parece responsabilidade demais. No fim das contas, deve ter sido isso mesmo. Azar o deles. E meu, quem sabe.

Há alguns anos, num reencontro da turma, acho que agradeci àquele meu colega pelo empréstimo do CD. Acho – já disse que não confio na minha memória. Hoje, sabe-se lá por onde ele anda e, se não falei nada na ocasião, espero ainda ter oportunidade. Revolver não é meu álbum favorito dos Beatles – o Álbum Branco ocupa o posto –, mas foi ele quem me apresentou ao mundo. Não consigo pensar em um elogio melhor.

Marco Tomazzoni é gaúcho e atravessou a Oswaldo Aranha e entrou no Parque Farroupilha comigo. Entende tudo de cinema. É repórter do iG Cultura